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11 de outubro de 2011

Abertura da semana de cinema em Nantes

A 14a. semana do cinema de língua portuguesa de Nantes estreou hoje de bela maneira com a apresentação do filme "Journal, Lettres et Révolutions" de Flavia Castro. Um debate animado pelo professor Guilherme Cavalheiro permitiu conhecer melhor o contexto histórico do filme.

Transcrevo a seguir uma entrevista da realizadora :

Você é uma filha do exílio, uma brasileira que nasceu de pais exilados e cresceu fora do Brasil. O título do filme, e o fato de você ter visitado os países onde morou durante os anos de exílio, deixa uma pulga atrás da orelha: por que não buscar o Brasil que você nunca conheceu.

Isso é complicado. O filme começa com a morte do meu pai. A morte dele é o que me deu vontade de fazer o filme e a busca é relacionada a isso, é uma tentativa de descobrir o que aconteceu, como ele morreu. Mas ao longo do filme isso se torna a busca da vida também. Acho que o filme junta essas duas coisas. A morte aconteceu depois do exílio em 1984. A busca é realmente sobre como meu pai morreu e é quase uma história policial que atravessa o filme todo. As viagens que eu faço ao longo do filme são para contar da minha vida, do ponto de vista meu, de criança, e com as cartas do meu pai, da época também, que são a visão dele.

E como essas duas partes se equilibram no filme ?

Eu escrevi um roteiro estruturado como se fosse uma ficção e com duas partes muito definidas e que iam se alternando ao longo do filme, de um lado, a vida, do outro, a morte. A vida do meu pai, com a volta aos países do exílio, países onde meu irmão Joca e eu passamos a infância. Eu queria transmitir o cotidiano da vivência do exílio, feita de pequenas coisas e não de grandes atos. Sensações e impressões, mais do que pensamentos. E com duas narrativas, duas vivências de uma mesma época se cruzando - a da minha infância, com textos meus e a do meu pai, através das cartas que ele escreveu ao longo da vida. A outra parte, é a do "presente" em que eu tento saber mais sobre as circunstancias em que meu pai morreu em 1984. Converso com policiais, médicos legistas, etc. Era a parte aberta do filme, pois eu não sabia o que iriam dizer, nem como acabaria.

Essa parte do roteiro mais aberto, por envolver terceiros que você não controla...

O meu pai morreu em Porto Alegre, em 1984, na casa de um alemão, ex cônsul do Paraguai no Brasil, uma história estranha, da qual se sabe pouco. E para tentar entender como meu pai morreu, eu fui conversar com jornalistas que cobriram o caso na época, com policiais e médicos legistas.. Essa parte do filme realmente era totalmente aberta, eu não tinha a menor idéia de como o filme ia acabar, se eu ia ter uma resposta pras minhas dúvidas.

E a parte que o roteiro era mais estruturado, mais escrito, era a parte da vida, onde desde o início eu sabia que eu queria ter essa visão da infância no exílio e a do meu pai, pelas cartas. O mais difícil foi integrar a investigação depois de filmada, porque era muita informação, eu não sabia como dosar isso.

Mas você acha que o filme foi tomando uma forma que já não acomodava tão bem essa parte da investigação ?

Apesar do mistério sobre a sua morte, a investigação não me interessava tanto quanto a vida, a trajetória. Mas as duas parte são indissociáveis, pois foi essa vida que levou a essa morte particular, e não à uma outra.

Esse não é seu primeiro trabalho com documentário, correto ?

Trabalho com cinema desde os 18 anos em cinema. Já fiz um pouco de tudo, mas sou basicamente roteirista. Minha trajetória profissional se divide entre a França e o Brasil. Na França, escrevia roteiros para series de TV. Mas foi como assistente de direção dos diretores Richard Dindo, em "Diário do Ché na Bolivia", e depois com Philippe Grandrieux, que me apaixonei pelo documentário. Atualmente acho que as fronteiras entre fição e documentário estão cada vez mais incertas e isso é muito bom.

Eu comecei a trabalhar em documentário com o Richard Dindo, documentarista suiço alemão. Fui assistente dele no filme "Diário do Ché na Bolivia". Foi uma experiência importantíssima para mim. Ele tinha um roteiro muito preciso, em que nada era improvisado. Logo depois, trabalhei com o diretor francês Philippe Grandrieux (diretor do filme Sombre) Ele mesmo filmava e tinha uma atitude que era exatamente inversa à do Dindo. Grandrieux chegava muito perto das pessoas com sua câmera, não cortava nunca, não pedia nada e ia integrando tudo que acontecia ao filme. O filme surgia desse fluxo entre ele e o "outro".

Esses dois métodos de trabalho que acompanhei de perto, me mostraram na prática, o quanto o documentário contemporâneo pode ser rico e diverso. Na França, aprendi também uma forma de trabalhar em produção muito mais econômica, em que as equipes são mínimas e os papéis menos rigidamente definidos do que aqui. Isso foi muito útil para fazer meu filme.

Bom, você fala de duas formas de se fazer documentário, um deles com roteiro totalmente estruturado, outro mais interessado em captar toda aquela realidade que cerca a realização de um filme. Fazer um documentário com roteiro fechado significa fazer dos personagens marionetes ou você pode dar espaço para as pessoas ?

O roteiro mais “fechado” no meu caso não era com relação às pessoas, mas com minha própria memória e forma de articular os elementos fílmicos. Eu fiz algumas entrevistas com a minha mãe nas quais ela fala coisas surpreendentes, que obviamente não estavam no roteiro mas entraram no filme. Mas quando eu digo fechado, é que eu sabia o que eu queria dizer, eu tinha os textos dos meus offs. Estruturado nesse sentido, pois eu sabia que o filme ia começar no Brasil antes do golpe, eu sabia como e o que eu queria contar com essa história. Mas não é um filme de depoimentos, é um filme que tem outras formas de contato, que tem uma narrativa particular nesse sentido porque há as cartas do meu pai, o ponto de vista dele próprio, do que ele vivia naquela época.

Mas o fato é que quando você vai entrevistar um médico legista, quando isso entra no seu roteiro, você imagina o que vem daquilo.

É complicado porque eu fui conversar com essas pessoas justamente para saber o que tinha acontecido. Então eu não tinha a menor idéia do que eu ia ter. Mas foi muito difícil montar depois, porque eu tinha muitas informações . Os militantes, por exemplo, os amigos, eu tive entrevistas de 3 ou 4 horas, teve alguns que entraram 5, 3 minutos no filme, outros nem entraram. Foi muito difícil, havia coisas muito lindas, era muito emocionante. Mas eu não queria que o filme avançasse só, pelos depoimentos, ele tem alguma coisa bastante ficcional na estrutura dramática dele.

Qual a responsabilidade de um diretor em um filme como esse ?

As mesmas que em qualquer outro documentário: descobrir o ponto de equilíbrio, o quanto é possível aceitar a exposição do outro, do "personagem" retratado. As vezes, até indo contra o desejo da pessoa.

Mas quando o "personagem" é o nosso próprio pai, - alguém muito próximo - e que além disso não está mais aqui para dizer o que pensa - , essa responsabilidade tem um lado absolutamente subjetivo. E justamente por isso, é bem mais difícil, eu acho.

A trajetória do meu pai se confunde com a história de toda uma geração de militantes que lutaram contra a ditadura no Brasil, que foram presos e depois exilados… É uma geração que sofreu o impacto de sucessivas derrotas, com as ditaduras se implantando pela America Latina afora e o projeto revolucionário sendo aniquilado. Acho que o filme revela um pouco do cotidiano dessa vivência, o lado íntimo. E isso inclui a família e o que eu chamo de “minha infância militante”, a vida das crianças no exílio. Havia muitas…

E sua carreira no Brasil? Você já tinha escrito e dirigido um curta de ficção no Brasil (“Cada um com seu cada qual”). Você está trabalhando num outro projeto atualmente?

Eu trabalho muito como roteirista, e agora eu escrevi esse primeiro longa, que se chama “A memória é um músculo da imaginação”, no qual eu estou trabalhando. Tenho também outros projetos de documentário. E quero muito fazer um filme com o material que sobrou do “Diário...”, com as entrevistas com os militantes.

14ème semaine de cinéma de langue portugaise du 10 au 15 octobre

RDV à ne pas manquertoute cette semaine : la 14ème semaine de cinéma de langue portugaise.

Consultez sur rmpm.net/cinema-portugal/semaine.html le programme.Bien que ce soit en semaine, l'horaire du soir au cinema Concorde (20h45) pourrait convenir à ceux qui travaillent en journée. Sinon, à 14 ou 15h, à l'Université, un film vous sera également proposé. Je compte sur votre présence !

5 de julho de 2011

Lido no Público : "Guerra Civil": Um filme imperdível


Impossibilitado de uma estreia comercial, "Guerra Civil", de Pedro Caldas, um dos melhores filmes portugueses de todas as gerações, é hoje exibido na Cinemateca Portuguesa.

"Guerra Civil", de Pedro Caldas, Melhor Longa Metragem Portuguesa do IndieLisboa 2010, é a primeira longa de um realizador com larga presença no cinema português (director de som nos anos 80 e 90 e autor de várias curtas recentes). "Gostava cada vez menos dos filmes em que trabalhava ou via. Escrevi argumentos, mas apenas agora recebi o apoio para realizar uma longa", diz-nos Caldas.

A época do filme é a década de 1980, no Verão de um país desfasado entre as expectativas e as desilusões das suas diferentes gerações. Para o realizador, "muito do filme é feito contra o cinema português dessa época e a sua perda, mas também sobre o que se passa agora. Perdeu-se o punk, a liberdade estética e política: é o início do mundo de hoje, em que os valores económicos predominam". Mas o filme vive, sobretudo, pelo comovente retrato das suas personagens: um jovem e solitário rapaz fechado na escuridão da sua imaginação (Francisco Bélard, candidato a melhor Ian Curtis do cinema), o encontro com uma rapariga que reflecte a luz e o calor da estação (Maria Leite, encarnando o brilho da inocência de vida no cinema), e uma geração adulta frustrada no falhanço das suas relações. "Interessava-me fazer um filme sobre várias solidões", explica Caldas. "O Rui [Francisco Bélard] não vê nenhum futuro à sua frente, é um punk tardio. A única personagem que sente a alegria de um futuro é Joana [Maria Leite]. A mãe tem medo de envelhecer, mas quer provar a si própria que ainda é mulher [uma tocante Catarina Wall]."

A sensibilidade do filme passa por um olhar sobre a vida potenciado pelas possibilidades do cinema: uma inovadora montagem que garante um olhar, sem julgamentos, sobre os desejos e falhas de cada um. "Achei justo montar pontos de vista diferentes para nos aproximarmos mais das personagens, dando-lhes o tempo de uma personagem principal", refere Caldas. A solidão de cada um é vista por uma montagem paralela dos mesmos dias de cada personagem, oferecendo uma ponte emocional para a presente (e eterna) forma de vida do país. "Hoje, vemos desencanto nas relações e pouca vontade de viver. Os portugueses tornam-se mais fechados com os problemas, sentem uma falta de alegria de viver que me choca", diz-nos Caldas. Contudo, "Guerra Civil" brilha pelo mais tocante dos sentimentos em cinema: a alegria de filmar. "É um dos maiores prazeres da vida", diz-nos Caldas, "mas, para a maior parte das pessoas com quem trabalhei antes, era um sofrimento. Fiz este filme também contra isso".

"Guerra Civil" remete-nos para um luminoso e desaparecido cinema português - o de "Uma Rapariga no Verão" (1986), de Vítor Gonçalves, obra nunca estreada e na qual Caldas trabalhou. "Guerra Civil" depara-se também com dificuldades em estrear, pairando, assim, a reclusão do cinema dessa época sobre o filme. A sua banda sonora, forte elemento da narrativa (Orange Juice, Joy Division), é o entrave da sua estreia, fazendo desta exibição (hoje, 21h30) uma ocasião especial para ver o filme.

"Só faz sentido fazer cinema para mostrar às pessoas. E, para o filme não morrer, é preciso exibi-lo", diz o realizador. João Figueiras, o seu produtor, refere que "o filme não pode passar nas salas, excepto nas condições especiais da Cinemateca, por uma questão burocrática: a versão original tem um impedimento nas autorizações de duas músicas. Não é uma questão financeira mas de não-autorização da Sociedade Portuguesa de Autores", diz-nos. "Estamos em contacto directo com o autor e aguardamos uma resposta a qualquer momento. Se se resolver, o filme vai para as salas, pois há interesse para que isso aconteça." O retrato emocional de um país, sedento de cinema, raramente terá encontrado tão sensível forma como em "Guerra Civil". A sua aguardada estreia será a nossa comoção.

Cinema: "Mistérios de Lisboa" na lista de dez nomeados ao prémio LUX atribuído pelo Parlamento Europeu

Lisboa, 04 jul (Lusa) - O filme “Mistérios de Lisboa” é um dos dez nomeados da edição deste ano do prémio LUX, atribuído pelo Parlamento Europeu e cujo vencedor será conhecido em novembro.

De acordo com um comunicado hoje divulgado pela produtora de cinema Clap Filmes, o filme de Raul Ruiz “é a única longa-metragem portuguesa a integrar o lote de 10 nomeados para a edição deste ano do galardão europeu”.

A lista de nomeados, divulgada durante o Festival Internacional de Karlovy Vary (República Checa), inclui, entre outros,“Essential Killing – Matar Para Viver”, de Jerzy Skolimowski, “Pina”, de Wim Wenders e “Habemus Papam”, de Nanni Moretti.

A lista de dez nomeados será posteriormente reduzida a três filmes, que serão projetados no Parlamento Europeu em outubro e novembro. A cerimónia de entrega do prémio decorre em Estrasburgo, a 16 de novembro.

O Prémio LUX do Parlamento Europeu foi criado, em 2007, para distinguir filmes sobre a identidade e a diversidade cultural na Europa.

O filme vencedor recebe apoio financeiro para a sua legendagem nas 23 línguas oficiais da União Europeia, a distribuição no espaço europeu e a adaptação da versão original para pessoas com deficiência visual e auditiva.

O filme "Belle Toujours", de Manoel de Oliveira, foi um dos três candidatos ao Prémio Lux em 2007. "Belle Toujours" disputou o prémio com "4 Meses, 3 Semanas e 2 dias", do romeno Cristian Mungiu, Palma d´Ouro no Festival de Cannes de 2007, e "Auf der Anderen Seite", do cineasta alemão de origem turca Fatih Akin, que venceu nesse ano.

27 de junho de 2011

Cinema: Rui Simões prepara filme sobre Annie Silva Pais, a filha do último diretor da PIDE


Lisboa, 27 jun (Lusa) - O realizador Rui Simões, autor de documentários sobre o Estado Novo e a revolução de abril, está a preparar um filme de ficção sobre Annie Silva Pais, a filha do último diretor da PIDE, Fernando Silva Pais.

"É um filme sobre o fim do fascismo e do comunismo. Annie serve de veículo para abordar essa temática e é uma personagem forte", disse Rui Simões à agência Lusa.

"Me gusta el Che" - assim se chamará o filme - é um projeto que Rui Simões tem em carteira há algum tempo, um primeiro filme de ficção para um realizador que, aos 67 anos, só tem documentários na filmografia.

Para o filme, que terá parte da rodagem em Cuba, Rui Simões inspirou-se em diversos documentos, incluindo o livro "A Filha Rebelde", de Valdemar Cruz e José Pedro Castanheira, que deu origem a uma peça de teatro, homónima, e que estão agora a motivar um processo em tribunal.

O processo foi movido por familiares de Silva Pais, o último diretor da PIDE que é mencionado no livro e na peça de teatro, embora ambos sejam focados em Annie Silva Pais.

Filha única de Fernando Silva Pais, o ex-diretor da PIDE, Annie Silva Pais abandonou a família e o país em 1965, aos 30 anos, e foi viver para Havana no início da Revolução Cubana.

Annie Silva Pais apaixonou-se pela revolta e por Che Guevara, tendo-se separado do marido e aderido aos ideais do movimento armado que derrubou o regime ditatorial de Fulgencio Batista em 1959.

Personagem rebelde e fascinante, Annie Silva Pais será o mote para Rui Simões voltar a abordar um período que marcou o seu cinema no começo da carreira.

Em 2009 Rui Simões reeditou dois filmes-chave de todo o seu percurso no cinema, como admitiu à época à agência Lusa: "Deus Pátria Autoridade" e "Bom povo português".

São dois documentários feitos nos anos 1970 sobre o Estado Novo e a revolução de Abril, feitos no calor de um novo tempo político e social no país, quando Rui Simões tinha acabado de chegar do exílio.

"Deus Pátria Autoridade", feito em 1975, aborda, de uma forma mais experimental, os 48 anos do regime de Salazar até ao 25 de Abril de 1974.

Já "Bom povo português", estreado em 1980, é um documentário que descreve a situação política e social portuguesa entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro de 1975, testemunho de um tempo conturbado de mudança.

Desde então, no currículo tem apenas com documentários, mas Rui Simões acalenta há muitos anos a realização de um filme de ficção.

Atualmente aguarda os resultados dos concurso de apoio do Instituto do Cinema e Audiovisual, no valor de 500 mil euros, para conseguir concretizar o projeto "Me gusta el Che".

15 de junho de 2011

Cinema: A guerra colonial e a imigração em Portugal vistas em dois filmes portugueses

Lisboa, 15 jun (Lusa) - Esta semana estreiam-se nos cinemas dois filmes portugueses que abordam questões da sociedade portuguesa, do passado e do presente: a guerra colonial vista pelas mulheres e a entrada de estrangeiros em Portugal.

"Quem vai à guerra", de Marta Pessoa, que passou no último festival IndieLisboa, é um documentário sobre a guerra colonial, visto numa perspetiva que nem sempre é tida em conta: a das mulheres.

Porque a guerra colonial não pertence "exclusivamente aos ex-combatentes", e porque deixou marcas em quem foi e em quem ficou, Marta Pessoa quis dar-lhes voz.

"As mulheres portuguesas não falam. Não há registos femininos. O Estado Novo pior ainda, não houve pior momento para a mulher do que o período da ditadura", afirmou a realizadora em entrevista à Lusa.

Cinquenta anos após o início da guerra, Marta Pessoa acredita que "não se fez o luto, há muitos enigmas no pós-25 de Abril, não só da descolonização, mas da forma como os ex-combatentes foram tratados, ou não foram tratados, ainda há muita mágoa".

Na quinta-feira estreia-se também "Viagem a Portugal", primeira longa-metragem de ficção do realizador Sérgio Tréfaut, conhecido sobretudo na área do documentário.

O filme, assumidamente comprometido com a realidade, como disse à Lusa, é sobre a entrada de estrangeiros em Portugal e a forma como estes são tratados nos aeroportos.

A história, protagonizada por Maria de Medeiros, baseada em factos reais, sobre uma professora ucraniana que em 1998 tentou entrar em Portugal para se encontrar com o marido zairense.

O realizador quis fazer um filme sobre "os interrogatórios que ocorrem diariamente nos aeroportos, que são, no caso português, completamente secretos".

"Acho fundamental que as instâncias de poder sejam questionadas", defendeu.

E se, por um lado, “há um perpétuo abuso das instâncias de poder, que são impunes, fazem o que querem sem que ninguém as critique”, por outro, a sociedade civil em Portugal é "cega, surda e muda", criticou.

Em complemento à estreia do filme, Sérgio Tréfaut e várias associações de imigrantes lançaram na internet a Plataforma Direitos, para recolha de depoimentos de pessoas que tenham passado por interrogatórios, detenções e expulsões nos aeroportos.

20 de maio de 2011

Cultura: Cineasta Luís Filipe Costa distinguido com o Prémio Consagração de carreira pela Sociedade Portuguesa de Autores

Lisboa, 19 mai (Lusa) – A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) comemora sexta-feira o seu 86.º aniversário distinguindo alguns dos seus cooperantes e entregando o Prémio de Consagração de Carreira ao realizador, romancista e radialista Luís Filipe Costa.

Nesta mesma cerimónia, que acontece na sede da SPA em Lisboa às 18:00, serão entregues os Prémios Pró-Autor, antecipando a comemoração do Dia do Autor Português, que se celebra no dia 22, por coincidir com um domingo, justifica a cooperativa num comunicado.

A SPA distingue este ano com Medalhas de Honra o dramaturgo, encenador e cenógrafo Hélder Costa, o jornalista António Tavares Teles, o compositor e intérprete José Mário Branco, o ator Rui Mendes, o poeta, compositor e guionista Nuno Nazareth Fernandes, a compositora e intérprete Maria Guinot, a teatróloga Yvette Centeno e o escritor Fernando Dacosta.

Estes galardões distinguem autores, “já em fase avançada da sua carreira criativa, que se têm destacado pela obra realizada”, refere a SPA.

Também serão entregues os Prémios Pró-Autor, que “consagram a ação de pessoas individuais e coletivas no tocante à difusão e dignificação do trabalho dos autores portugueses”.

Irão ser distinguidos com o Prémio Pró-Autor o Centro Cultural de Belém, o Festival de Cinema Fantasporto, o Teatro Experimental de Cascais, Ana Aranha pelo programa “À Volta dos Livros”, da RDP-Antena 1, o Jornal de Letras, o Correntes d'Escritas, encontro de escritores de línguas ibéricas que anualmente se realiza na Póvoa do Varzim, o maestro Álvaro Cassuto e a víúva do escritor Jorge de Sena, Mécia de Sena, que em 2009 entregou o espólio do autor de “O Banquete de Dionísos” à Biblioteca Nacional de Portugal.

No decorrer da cerimónia será conhecido o vencedor do Grande Prémio de Teatro Português SPA/Teatro Aberto 2011.

A peça “O Álbum de Família”, de Rui Hebron, foi a vencedora no ano passado deste galardão.

11 de maio de 2011

Cinema: Portugal é o país convidado do festival de documentário de Trieste


Lisboa, 11 mai (Lusa) – Pela primeira vez o Festival Internacional de Documentário de Trieste, em Itália, apresenta uma secção inteiramente dedicada a um país e à sua cinematografia – e a escolha recaiu sobre Portugal, anunciou a embaixada italiana em Lisboa.

O Festival Internacional de Documentário de Trieste (NodoDocFest), que começa hoje e decorre até 16 de maio, vai apresentar, na secção Panorama, 17 obras de cineastas portugueses.

Na sua página na Internet, o festival anuncia “uma janela sobre Portugal” – “uma pequena nação com uma grande história e uma determinada identidade e tradição cinematográficas”, desde o “jovem-velho mestre Manoel de Oliveira ao revolucionário punk Pedro Costa”.

Entre os filmes portugueses mais recentes, vão ser exibidos, entre outros, “48”, de Susana de Sousa Dias, “Fantasia Lusitana”, de João Canijo, ou “Ruínas”, de Manuel Mozos.

9 de maio de 2011

Cinema: Premiado em Itália documentário “Pare, Escute, Olhe”, de Jorge Pelicano


Lisboa, 08 mai (Lusa) – O documentário “Pare, Escute, Olhe”, de Jorge Pelicano, foi distinguido em Itália, na 59.ª edição do Trento Film Festival, com o Prémio Cittá di Bolzano, para o Melhor Filme de Exploração e Aventura.

O galardão, entregue no sábado ao documentário português sobre o fim da linha ferroviária do Tua, foi assim justificado pelo júri: “Este documentário mostra o que acontece ao povo quando o sistema político é mais influenciado pelos interesses privados do que os interesses de uma comunidade. É um grande exemplo de cinema interventivo que nos deixa a pensar”.

“Pare, Escute, Olhe” foi escolhido de entre os 27 filmes de vários países que estavam a concurso.

Para o realizador, Jorge Pelicano, este prémio “comprova que o fecho da linha ferroviária e repetidas injustiças para com o povo transmontano também não deixaram indiferente o público italiano e o júri internacional”.

“Espicaçar, não deixar as pessoas indiferentes, era um dos objetivos deste documentário. Mesmo a uma grande distância de Portugal, as pessoas sentiram a revolta. A mensagem do filme foi compreendida”, comentou.

Depois de ter sido reconhecido em Portugal em certames como o DocLisboa, CineEco e Caminhos do Cinema Português, este é o oitavo prémio para “Pare, Escute, Olhe”, um documentário destinado a alertar para a necessidade de defender a identidade da região transmontana, onde se situa o único distrito do país sem um único quilómetro de autoestrada.

28 de abril de 2011

Lido no Público : Nuno Maló nomeado para Compositor Revelação 2011 dos Gold Spirit Awards


Nuno Maló, compositor da música de “Amália, O Filme”, é um dos nomeados para o Prémio Compositor Revelação do Ano 2011 dos Gold Spirit Awards.

O compositor português é um dos seis nomeados ao prémio que é anunciado durante a 7.ª edição do Festival Internacional de Música e Cinema de Ubeda, em Espanha, que acontece de 18 a 24 de Julho.

O nome de Nuno Maló, que venceu recentemente o prémio de Compositor Revelação do Ano da Associação dos Críticos de Música de Filmes, com sede em Los Angeles, surge ao lado de Trent Reznor, vencedor do Óscar deste ano na categoria de Banda Sonora Original (“A Rede Social”), do duo francês de música electrónica, os Daft Punk, do norte-americano Matthew Margesone, do espanhol Arnau Batallier e do turco Pinar Toprak.

Os Gold Spirit Awards foram instituídos em 2001 pela BSOSpirit, um site da Internet espanhol vocacionado para fãs de cinema e de composições para cinema destinados a reconhecer a importância da música na cinematografia. Desde 2002 que é possível a votação online no sítio.

O nome GoldSpirit é uma homenagem ao compositor norte-americano Jerry Goldsmith, juntando o seu nome ao da organização promotora dos prémios.

Nomeado para 17 Óscares, Jerry Goldsmith, nascido nos Estados Unidos em Fevereiro de 1929 e falecido em Junho de 2004, recebeu um Óscar em 1976 pela composição para o filme “The Omen”. Entre as várias bandas sonoras que compôs conta-se a da série “Caminho das Estrelas”.

Em comunicado, a Valentim de Carvalho congratula-se com a nomeação de Nuno Maló, considerando que “comprova a qualidade do seu trabalho em “Amália, o Filme””.

23 de abril de 2011

25 de Abril: O cinema estava lá, mas agora ninguém o vê

Lisboa, 23 abr (Lusa) – A 25 de Abril de 1974, numa época em que os diretos televisivos eram ainda uma miragem, foi o cinema que saiu à rua. Mas, hoje, os filmes que registaram as primeiras imagens em movimento da Revolução são raramente vistos.

Os jornalistas foram ao encontro dos acontecimentos, armados de blocos, microfones e máquinas fotográficas. Mas é aos cineastas que se deve agradecer as imagens simbólicas que passam e repassam a cada ano que faz mais um ano a democracia.

Fernando Matos Silva é um deles. Um dos realizadores do coletivo Cinequipa, que fez “As Armas e o Povo” (1975), entre outros, contou à agência Lusa, recentemente, como foi dos “primeiros a ir para a rua filmar”, com o irmão, uma Paillard Bolex e bobines de 30 metros.

“Todas as filmagens até ao meio dia do 25 de Abril só existem porque arriscámos filmar e foram filmadas com muito prazer, muito amor, muita força e muita ideologia”, lembrou, acrescentando que, na altura, os filmes foram mostrados porque os próprios realizadores foram “projectá-los pelo país fora com máquinas de 6 mm”.

Como “era tudo assinado coletivamente”, muitas das imagens destes filmes “passam todos os anos [na televisão] completamente desgarradas e deixaram de ter autoria”, criticou, durante a última edição da Panorama – Mostra do Documentário Português.

Hoje, é difícil apanhar estes filmes em salas de cinema, quanto mais na televisão. E o resultado é que acabam por se ver sempre os mesmos planos da chegada da liberdade.

“É uma pena que esses filmes não passem. Devíamos trabalhar muito mais as memórias que estão guardadas na Cinemateca e mesmo na televisão”, defende a jornalista e documentarista Diana Andringa.

Mas, sublinha, “não há interesse em que se cultive esta memória”, diz-se que é melhor “esquecer esses anos esquisitos, em que as pessoas gritavam muito e se insultavam e faziam manifestações”.

“Querem-nos infantilizar a todos muito, desmemoriando-nos”, critica. Em Portugal, diz, “há uma amnésia” – “imposta” e “fomentada”. À qual o cinema, como garante da memória coletiva, não escapa.

“Querem-nos impor uma forma de olhar para as coisas. Estamos muito dominados, tantos anos passados sobre o 25 de Abril, por uma mentalidade salazarista. Criou-se a ideia de que temos de viver em consenso, quando o consenso não existe”, compara.

Ora, acredita, “não se cresce sem olhar o passado” e é para isso que servem os documentaristas, “para lembrar que as coisas aconteceram”.

Rui Simões, realizador de “Deus, Pátria, Autoridade” (1975) e “Bom Povo Português” (1980), reconhece que em 1974 havia “outra militância”, no país e no cinema.

“Não sei se o cinema tem estado à altura do país ou se o país tem estado à altura do cinema. Acho que o cinema é maltratado (…). O poder não gosta do cinema, a cultura não gosta do cinema, os portugueses não gostam do cinema. O que era interessante era passarmos todos a gostar do cinema, sobretudo do feito por portugueses”, reclama.

A realizadora Susana de Sousa Dias, que tem feito nascer filmes do arquivo da PIDE (“48”, por exemplo), reconhece que se estava a viver “um acontecimento excecional”, mas lamenta que se tenha perdido o “carácter interventivo” e que se faça pouco documentário “sobre os assuntos que estão a acontecer”.

Em todos os filmes do pós-Abril, há um jornalista incontornável: Adelino Gomes. “Toda a gente estava a descobrir a liberdade” e era tudo vivido com “intensidade de cem por cento”, afirma, acrescentando: era “um momento de aprendizagem, de euforia”, que, por isso, “não era possível aguentar por muito tempo”.

Os jornalistas, de um dia para o outro, passaram de uma "jornada de trabalho sob a censura" para a liberdade. “Eu compreendo que hoje não se viva em PREC [Período Revolucionário Em Curso]. Nalguns aspetos, até acho que é bom que não se viva em PREC. Agora, hoje, sobretudo nos últimos tempos, vivemos quase no anti-PREC. Só notícias más, de recuos”, confronta.

“O engajamento passou um bocadinho de moda”, diz Diana Andringa, que assume ter “um ponto de vista” quando faz um filme sobre a Guerra Colonial, por exemplo. “Vivemos nesta coisa mansa em que parece mal discutir-se ideologias. Parece que quem discute ideologias é assim um bocado atrasado, a ‘soixante-huitard’ retardado, como por vezes me chamam”, ironiza.

20 de abril de 2011

Cinema:Realizador João Pedro Rodrigues no júri de dois prémios do Festival de Cannes


Lisboa, 20 abr (Lusa) – O realizador português João Pedro Rodrigues fará parte de um júri que vai decidir dois dos prémios da 64.ª edição do Festival de Cinema de Cannes, a realizar-se entre 11 e 22 de maio, anunciou hoje a organização.

João Pedro Rodrigues partilhará o júri com o realizador francês Michel Gondry, a atriz e produtora francesa Julie Gayet, a realizadora e produtora austríaca Jessica Hausner e o realizador romeno Corneliu Porumboiu.

Este júri vai encarregar-se de escolher 3 de 16 obras enviadas por escolas e universidades de todo o mundo e selecionadas pela Cinéfondation – criada pelo Festival de Cannes em 1998 para “inspirar e apoiar a próxima geração de cineastas internacionais”, segundo consta no sítio oficial do festival –, numa cerimónia a realizar-se a 20 de maio.

Entre os filmes selecionados está "A Viagem", curta-metragem escrita e realizada pelo português Simão Cayatte.

O mesmo júri vai ainda eleger a melhor curta-metragem desta edição do festival de cinema francês, a ser anunciada no dia 22, quando decorre a cerimónia de encerramento.

João Pedro Rodrigues teve já duas participações com filmes seus em edições anteriores de Cannes: “Odete” (2005) passou na Quinzaine des Réalisateurs e “Morrer como um homem” (2009) foi exibido na secção Un Certain Regard.

A participação portuguesa na 64.ª edição do Festival de Cannes integra ainda a curta-metragem "Nuvem", do realizador luso-suíço Basil da Cunha, que será exibida na Quinzena dos Realizadores.

Entretanto, a organização do Festival de Cinema de Cannes fechou também o júri da Palma de Ouro, que já se sabia ser presidido por Robert de Niro.

É composto por Martina Gusman (atriz e produtora argentina); Nansun Shi (produtor de Hong Kong/China); Uma Thurman (atriz norte-americana); Linn Ullmann (argumentista e crítica norueguesa); Olivier Assayas (realizador francês); Jude Law (ator britânico); Mahamat Saleh Haroun (realizador chadiano); e Johnnie To (realizador e produtor de Hong Kong/China).

19 de abril de 2011

Cinema: Curta-metragem "Nuvem", de Basil da Cunha, selecionada para Cannes

Lisboa, 19 abr (Lusa) - A curta-metragem "Nuvem", do realizador luso-suíço Basil da Cunha, foi selecionada para a Quinzena dos Realizadores, no âmbito do Festival de Cinema de Cannes, em maio em França, revelou a produtora O Som e a Fúria.

O filme foi produzido por Portugal e pela Suíça e foi rodado no verão de 2010 em Lisboa.

Nuvem é um rapaz que vive num bairro da lata crioulo em Lisboa.
"Com pouca inclinação para o trabalho, gosta da companhia dos cães e dos palhaços. Perante a indiferença da empregada de bar pela qual está apaixonado, Nuvem vira-se para a busca do misterioso peixe-lua", refere a sinopse do filme.

Basil da Cunha, de 25 anos, é filho de mãe suíça e pai português.

Fez três curtas-metragens, estudou cinema na Escola de Artes e Design de Genebra, no âmbito da qual realizou "A Côté", exibido em 2009 no festival de Locarno, na Suíça, e premiado no ano seguinte no festival de curtas de Vila do Conde.

A 64.ª edição do festival decorrerá de 11 a 22 de maio.

Além de "Nuvem", o filme "A Viagem", do realizador Simão Cayatte, foi selecionado para a secção "Cinéfondation", do festival de Cinema de Cannes.

21 de março de 2011

Lido no Ouest France : L'étrange jeunesse du réalisateur de 102 ans


«Un phénomène» Cette Étrange affaire Angelica (actuellement en salles), c'est le septième film qu'elle tourne avec lui, comme chef-opératrice. Sabine Lancelin est admirative. De plus en plus : « Il y a chez lui une résistance physique et morale sidérante. »

Le « lui » en question? Manoel de Oliveira. Le doyen mondial des cinéastes. À 102 ans, il affiche encore, dans un conte fantastique, sa passion pour son art et sa foi en l'amour. L'étrange affaire Angelica, où un jeune photographe tombe amoureux d'une femme morte qui semble se réveiller devant son objectif, est la reprise d'un scénario qu'il avait dans ses cartons depuis... soixante ans. Parce que le temps n'a pas de prise sur l'enthousiasme, la liberté, du réalisateur portugais: « Il représente à lui tout seul une histoire du cinéma. »

« Attentif à la jeunesse »

Manoel de Oliveira est né treize ans seulement après la première séance publique de cinéma organiséepar les frères Lumière, le 23 décembre 1895. De cette époque-là, il a gardé la passion d'inventer, la fantaisie de surprendre : « Il est très attentif au monde qui change, à la jeunesse. C'est la façon de rester vivant selon lui. »

Sur le plateau de tournage, l'équipe le retrouve chaque matin, « vers 11 h », présent et actif : « Il donne ses indications sur le programme de la journée, dit à chacun ce qu'il a à faire, puis on va manger. Toujours dans un esprit très convivial. Il y tient beaucoup. »

Comme il tient beaucoup aussi à la présence de ses proches autour de lui. Comme Ricardo Trêpa, son petit-fils et acteur fétiche. « Ça le rassure. Avec lui, tout se fait dans une ambiance artisanale et familiale. » Il en sera encore ainsi tout au long de son prochain long métrage, dont le clap de départ approche : « Il ne parle jamais de son âge. Il était très fier et heureux quand nous avons fêté son centenaire. Mais il ne s'arrête pas à ça. L'âge des gens, c'est le regard des autres. Lui, il est dans la vie. » (Pierre FORNEROD).

16 de março de 2011

Lu dans Libération : Angélica», souriez, vous êtes morte


Tard dans la nuit, surgissant des ténèbres pluvieuses de quelque ville archétype de vieille province (Régua, au Portugal), un quidam sonne à la porte d’une boutique archi-fermée. Et insiste. A trois reprises. Une lumière finit par s’allumer à l’étage. «C’est à quel sujet ?» demande la dame qui apparaît au balcon. Et nous donc : c’est à quel sujet ? C’est au sujet de l’Etrange Affaire Angélica, le 57e film de Manoel de Oliveira. Ça ne pouvait pas attendre ? C’est une urgence ? En effet, et quelle ! Généralement, c’est à la porte d’une pharmacie qu’on toque ainsi à pas d’heure. Ici, il s’agit du magasin d’un photographe. Angélica, jeune femme de famille riche, vient de mourir. Sa mère désire qu’on fasse d’elle un ultime portrait. C’était donc ça qui exigeait qu’on nous réveille : une histoire à dormir debout, une certaine idée fabuleuse du cinéma.

Oliveira, marabout autant que guérisseur, nous ouvre son échoppe à sortilèges, une petite boîte magique à irresponsabilité illimitée. Mieux que ça : une baraque de fête foraine, une attraction ancestrale, un chamboule tout (le cinéma), une séance d’hypnose. Les yeux dans le vide, Oliveira se demande ce qui se passerait si à force de fixer une image elle se mettait - on l’espère, on le craint - à bouger. C’est ce qui arrive à Isaac, jeune photographe mandé, lorsque fixant son objectif sur la défunte, il voit qu’Angélica ouvre les yeux et lui sourit. C’est aussi, image qui bouge, une définition primale du cinéma. Dans les deux cas : coup de tonnerre et coup de foudre. Isaac tombe follement amoureux d’Angélica. Et nous succombons éperdument au film. Qui nous fait de l’œil, à bien des égards.

Antimatière. Comme filmé à la machine à écrire, l’Etrange Affaire Angélica fait revenir une bibliothèque surnaturelle, une sorte de Manoel de littérature fantastique où se tutoieraient Henry James (période le Tour d’écrou), une enquête inédite de Sherlock Holmes (l’Etrange Affaire Angélica valant bien l’Aventure de la veuve rouge), un livre de Borges (certain passage de l’Eloge de l’ombre), et bien des Russes : la maison de maître où Angélica a défailli est comme une Cerisaie après le dernier acte, et le photographe Isaac habite une pension de famille où, au petit déjeuner, les dialogues citent des mondanités à la Pouchkine - philosopher sur l’antimatière, se plaindre des ennuis du temps présent, en buvant du café.

Il y a aussi dans ce film imagé pas mal de peinture. A vrai dire, de la toile peinte. Les apparitions spectrales d’Angélica viennent de Méliès (l’image vire alors au noir et blanc) et, plus loin, du théâtre à effets de la fin du XIXe siècle, où dans un tourbillon de fumigènes apparaissait sur scène la réincarnation de Nabuchodonosor. Les résurrections d’Angélica ont cependant une autre saveur, poivrée par l’humour fourchu d’Oliveira. A sa façon, Angélica est une super-héroïne, dotée du super-pouvoir de voler dans les airs où elle entraîne enlacé son amant d’outre-tombe. Ce n’est pas tout à fait le retour de la blanche Ophélia dans le rôle de Superwoman, mais son vol au ras du fleuve Douro a tout d’une mise sous surréalisme de Rimbaud.

Vignes. Quand il ne s’envoie pas en l’air avec Angélica, Isaac se précipite dans les vignes photographier des paysans au travail. Ce reportage serait-il un contrepoint réaliste ? Un documentaire enchâssé dans la fiction pour la contrarier ? Ou, plus pratiquement, la preuve faite film que documentaire et fiction ne sont pas condamnés au vis-à-vis, que ces deux courants du cinéma peuvent fraterniser, à égalité de lumière, emportés par le même flux, dans un état de grâce torrentiel (Gérard Lefort)

20 de janeiro de 2011

Cinema português em Angers


A 23a. edição do festival Premiers Plans, que decorre em Angers de 21 a 30 de Janeiro, apresenta alguns filmes portugueses ou produzidos por Portugal :

  • a curta metragem de Susana Nobre "Lisboa-província", nos dias 24 e 25 de Janeiro ;
  • o filme coproduzido por Paulo Branco "Cendres et Sang" no dia 24 de Janeiro ;
  • o filme de João Nicolau "A espada e a Rosa" do dia 28 de Janeiro.

João Salaviza fará  a leitura do cenário de "Rafa" no dia 22 de Janeiro.

O programa completo deste evento em : www.premiersplans.org.

30 de dezembro de 2010

Cinema: Ministério da Cultura congratula-se com destaque internacional do cinema português


Lisboa, 30 dez (Lusa) - O Ministério da Cultura (MC) aplaudiu hoje a presença de produções portuguesas nas listas internacionais dos melhores filmes de 2010 e sublinhou o "inequívoco dinamismo que actualmente caracteriza o setor".

Em comunicado, a tutela congratulou-se com o facto de a revista New Yorker ter elogiado quatro filmes portugueses, dos realizadores Miguel Gomes, Pedro Costa, Manoel de Oliveira e Eugéne Green, e de a publicação francesa Cahiers du cinema ter eleito "Morrer como um homem", de João Pedro Rodrigues, entre os melhores estreados em França.

Este foi também o ano em que o jovem realizador Gabriel Abrantes venceu o Leopardo de Ouro de melhor curta-metragem em Locarno, "Mistérios de Lisboa", de Raul Ruiz, venceu o prémio Louis Delluc, e Pedro Costa viu a sua obra em retrospetiva no Japão, Estados Unidos ou França.

"Estes são alguns exemplos da qualidade e vitalidade do cinema português", escreveu o Ministério da Cultura.

Isto num ano em que produtores e realizadores portugueses assinaram um manifesto de apelo à ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, para uma "intervenção de emergência" face à situação de "catástrofe" em que vive o cinema português.

Vários agentes do setor, como Manoel de Oliveira, Pedro Costa, João Botelho e Pedro Borges, criticaram a paralisia do fundo de investimento FICA, as regras de atribuição de subsídios do Instituto do Cinema e Audiovisual e a situação de desinvestimento contínuo nos últimos anos.

Gabriela Canavilhas reconheceu as fragilidades do setor e prometeu uma nova lei do cinema, que anuncia agora em comunicado que deverá ser concretizada em 2011, ano que espera "igualmente fervilhante em termos de qualidade e de actividade nacional e internacional".

Quanto a medidas para o novo ano, o ministério tenciona ainda implementar uma rede nacional de exibição não comercial de cinema digital e a regulamentação do depósito legal das imagens em movimento.

Este ano estrearam-se nos cinemas cerca de vinte filmes de produção portuguesa, com "A bella e o paparazzo", de António-Pedro Vasconcelos, a conquistar mais espetadores (98 792), seguindo-se "Contraluz", de Fernando Fragata (83 724).

"Filme do desassossego", que o realizador João Botelho, levou em digressão pelo país fora do circuito comercial, foi visto desde setembro por 16 375.

"José & Pilar", de Miguel Gonçalves Mendes, foi o documentário mais visto nos cinemas, com 14 295 espetadores.

17 de dezembro de 2010

Cinema: Filme "Mistérios de Lisboa" distinguido com prémio francês Louis Delluc


Lisboa, 17 dez (Lusa) - O filme "Mistérios de Lisboa", do chileno Raúl Ruiz, foi considerado hoje o melhor filme de 2010 em França, pelo júri do prémio Louis Delluc, revelou à agência Lusa Paulo Branco, um dos produtores da longa-metragem.

O prémio Louis Delluc, criado em 1937, é atribuído por um grupo de 20 personalidades e críticos do cinema francês e é atualmente presidido por Gilles Jacob, presidente do festival de cinema de Cannes.

Além de "Mistérios de Lisboa", que tem produção luso-francesa, estavam ainda nomeados "Carlos", de Olivier Assayas, "Dos homens e dos deuses", de Xavier Beauvois, "O escritor fantasma", de Roman Polanski, "Tournée", de Mathieu Amalric, "White material", de Claire Denis, "Des filles en noir", de Jean-Paul Civeyrac, e "La princesse de Monpensier", de Bertrand Tavernier.

Com mais de quatro horas de duração, "Mistérios de Lisboa" é uma adaptação para cinema do romance homónimo de Camilo Castelo Branco, um fresco sobre a sociedade portuguesa de finais do século XIX, protagonizado por um extenso grupo de atores portugueses e franceses.

O filme, que valeu ao realizador chileno Raúl Ruiz um prémio no festival de San Sebastian, em Espanha, e o Prémio da Crítica na Mostra Internacional de Cinema de S. Paulo, estreou-se nos cinemas nacionais em meados de outubro e está ainda em cartaz no cinema Medeia King, em Lisboa, e em diversas localidades do país. Será exibido no Cine-Teatro S. Pedro, em Abrantes, no dia 22 de dezembro. Em janeiro, "Mistérios de Lisboa" poderá ser visto em Faro, Portimão e Sesimbra.

No primeiro mês, somou cerca de onze mil espetadores em Portugal.

Em França, o filme continua em exibição em cinco salas de cinema de Paris e também em cidades como Bordéus, Lyon ou Toulouse, estando programadas mais salas noutras cidades para breve.

"Mistérios de Lisboa", um dos mais ambiciosos projetos do cinema português, com um orçamento de 2,5 milhões de euros, será exibido na RTP em formato minis de seis episódios.

Em 2009, o prémio Louis Delluc foi atribuído a "Um profeta", de Jacques Audiard.

26 de novembro de 2010

Cinema: Filme "Mistérios de Lisboa" nomeado para prémio francês Louis Delluc

Lisboa, 26 nov (Lusa) - O filme "Mistérios de Lisboa", do chileno Raúl Ruiz e produzido por Paulo Branco, está nomeado para o prémio francês de cinema Louis Delluc, revelou hoje a produtora Clap Filmes.

O prémio Louis Delluc, criado em 1937, é atribuído por um grupo de personalidades e críticos do cinema francês e é atualmente presidido por Gille Jacob, presidente do festival de cinema de Cannes.

Além de "Mistérios de Lisboa", que tem produção luso-francesa, estão ainda nomeados "Carlos", de Olivier Assayas, "Dos homens e dos deuses", de Xavier Beauvois, "O escritor fantasma", de Roman Polanski, "Tournée", de Mathieu Amalric, "White material", de Claire Denis, "Des filles en noir", de Jean-Paul Civeyrac, e "La princesse de Monpensier", de Bertrand Tavernier.

Com mais de quatro horas de duração, "Mistérios de Lisboa" é uma adaptação para cinema de um romance homónimo de Camilo Castelo Branco, um fresco sobre a sociedade portuguesa de finais do século XIX, protagonizado por um extenso grupo de atores portugueses e franceses.

O filme, que valeu ao realizador chileno Raúl Ruiz um prémio no festival de San Sebastian, em Espanha, estreou-se nos cinemas em meados de outubro, está ainda em cartaz, tendo já somado cerca de onze mil espetadores.

"Mistérios de Lisboa", um dos mais ambiciosos projetos do cinema português, com um orçamento de 2,5 milhões de euros, será ainda exibido na RTP em formato minisérie de seis episódios.

Os vencedores, de melhor filme e melhor primeira obra, do prémio Louis Delluc serão conhecidos a 17 de dezembro.

Em 2009, o prémio Louis Delluc foi atribuído a "Um profeta", de Jacques Audiard.

6 de novembro de 2010

Cinema: "48", de Susana de Sousa Dias, vence Melhor Documentário Internacional em festival na República Checa


Lisboa, 06 nov (Lusa) - O documentário “48”, de Susana de Sousa Dias, venceu o Prémio Opus Bonum para Melhor Documentário Internacional no Festival Internacional do Filme Documentário de Jihlava, na República Checa, disse a autora à Lusa.

“No final houve um único filme cujas imagens me marcaram mais profundamente do que os outros. Todas as imagens neste filme foram feitas por um criminoso vestindo um uniforme da polícia, selecionadas a partir dos arquivos secretos de detenção da polícia de Portugal”, refere uma nota do júri em que justifica a decisão do prémio atribuído na República Checa.

E acrescenta: “A cineasta procura por sobreviventes, que contam histórias simples mas complicadas de tortura e mutilação, e de sobrevivência. Por outras palavras, eles mostram o custo de ter um rosto, o custo de ver uma cara como esta”.

“48” é um documentário sobre a tortura no Estado Novo em Portugal.

O último prémio conquistado pelo documentário foi o FIPRESCI, atribuído pela Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica, no Festival Internacional do Documentário e Cinema de Animação de Leipzig, na Alemanha, que decorreu de 18 a 24 de outubro último.

Além daqueles galardões, “48” já foi contemplado com o Grande Prémio do Cinema du Réel, em França, e vai competir noutros festivais internacionais, nomeadamente em Turim (Itália), Sarajevo (Bósnia e Herzegovina) , Istambul (Turquia), Buenos Aires (Argentina), Bogotá (Colómbia), Belo Horizonte (Brasil), Milão (Itália) e Leeds (Reino Unido).

Realizadora de “Processo-crime 141/53 – Enfermeiras no Estado Novo” (2000) e “Natureza Morta” (2005), Susana de Sousa Dias voltou ao período do Estado Novo em “48” para falar dos antigos prisioneiros da PIDE, polícia política dos regimes de Salazar e Caetano.

O documentário integra testemunhos de entrevistas realizadas pela realizadora, sobrepostos às imagens a preto e branco tiradas na época por agentes da PIDE às pessoas que foram presas e torturadas.

Com 48 anos, a realizadora – que espera estrear “48” nas salas portuguesas até ao fim deste ano ou em 2011 - encontra-se a realizar o documentário “Luz Obscura” e está a trabalhar em “Stillleben”, uma instalação em três ecrãs.